segunda-feira, 4 de março de 2013

verbalizar

Volte para mim, oh vontade de escrever. 

Me venha com palavras fáceis, em verso ou em prosa, rasgue de dentro dos dedos que tremem, denunciando a falta de coragem ou a falta de jeito.
Vença a distração do telefone que toca nas horas impróprias e que leva pra longe as poucas rimas que surgem.
Faça desse branco vazio um esplendoroso bem-dito, que traga o suspiro e o riso com lágrima.
Não se entregue às dúvidas nem às dívidas do mau uso do verbo, ou da carne. Venha fácil, leve e sem receio. Fale do seio, da boca, do beijo ou simplesmente do rímel borrado nos olhos dela. Quero a palavra molhada, com o gosto do sexo e da cerveja gelada do bar. Quero todas aquelas letras que me sobram quando acordo de madrugada, quando sono me falta e idéias me sobram.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

carta


Eu não sei dizer por quanto tempo ela aguardou colada ao telefone, esperando que você ligasse. Talvez tempo suficiente para pensar em muitas coisas que a deixaram mais insegura e menos feliz.
Era notável em seus olhos a angustia das horas e dos dias em que aquela esperança de ainda ser importante pra você, de alguma maneira, foi dando a certeza da substituição. Pensava consigo: pessoas são facilmente substituíveis. 
Distraindo suas tardes com playlists cheias de boa música, ela chegava quase a sentir a mesma dor cantada por Kurt Cobain em suas letras, um misto de rejeição e ansiedade somada à ausência de alguém a quem se quer muito bem.
No fundo ela sabia que ia ser assim. Mas ela tentou, acreditou e esperou por você o quanto pode e, talvez, lá no seu intimo ela ainda espere por você, no tilintar do telefone celular ou batendo à porta para um passeio vespertino, com direito a sorvete e vitrines.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

2013


Acabei de passar meu primeiro café de 2013. 
O café é novo, mas nem tudo me parece tão novo assim, não fosse pelo calendário, ainda sem rabiscos e orelhas de burro. 
Estamos sempre a procura do novo. Novos discos, novos livros, novos amigos, novos amores ou novas formas de amar e, parafraseando Belchior, "o novo sempre vem", ou as vezes nós é que vamos ao seu encontro, deixando as velhas roupas coloridas para quem precise delas, para quem elas ainda sirvam. 
2012 teve início ao redor do fogo, com gritos e cantoria, numa alegoria digna de um ritual de iniciação e se findou sob a chuva terna de quem plantou a semente e agora rega, para fazer de 2013 uma árvore frondosa e cheia de bons frutos.
Outros 364 dias seguirão a orientação do trabalho, da fé e do amor. Fazer valer a pena e ser feliz.
Bom 2013 à todos!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O fim do mundo

A toda hora, alguma coisa chega ao fim em nossas vidas, em constante mutação, o velho dando lugar ao novo. Só que não, ainda não é o fim do mundo

Somos todos efêmeros, mas vivemos sobre a sombra de uma soberba que nos faz pensar como gigantes, imortais, super-homens, vivendo uma eternidade diária, que se põe junto com o sol.

Gostaria eu de ter essa possibilidade, a persistente juventude, no corpo e na alma, mas sei que os dias, melhores ou piores, sempre vêm, um após o outro.

Hoje, se faz importante agradecer, outra vez, por tantos e tantos momentos bons e inesquecíveis vividos na companhia dos velhos amigos do peito, da família sempre presente, da minha filha-luz da minha vida-amor eterno, Isabela, e todos os coadjuvantes que, de jeito ou outro, me ajudaram a desenhar e entender os caminhos da vida.

Não, ainda não é o fim. Sabemos, cada vai ter o seu, e esta coisa de esperar o fim do mundo nada mais é do que uma massiva representação do egoismo humano, tentando se conformar e justificar o medo de deixar tudo para trás. Ninguém quer experimentar o desconhecido sozinho.

Hoje eu deixei minha cama muito mais cedo do que gostaria. O mundo continua rodando, no céu a única bola de fogo visível é o Sol e com certeza todas as compras do Natal deste ano terão de ser pagas no ano que vem.

Então, chega de lero-lero e todo mundo voltando ao trabalho!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

sem querer

e quando as palavras em mim calam
ousam dizer muito mais
do que eu em alta voz
seria capaz de fazer.
quanto mais tu se afastas
mas eu meu aproximo

nesse ter sem ter
querendo sem querer
sou, como sempre
um retrato de mim

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Nunca é tarde pra dizer


Foi à primeira vista, tenho certeza. Desde a primeira vez em que te vi, algo se acendeu em mim. E tem coisas que a gente não sabe muito como explicar, quando vi já era, como se desejos do passado se materializassem no meu corpo. Interessado, fui atrás, fiz contato, telefonemas, conversas olho o olho até que finalmente você estava comigo.

Lembro de praticamente tudo, nossos primeiros momentos juntos, nossos passeios pelas ruas da cidade. Eu estava mesmo feliz e desde o inicio tive pra mim que seria uma relação pro resto da vida. Tudo, enquanto novidade, é prazeroso e parece não ter fim.

Sempre gostei do teu estilo, das tuas formas, das tuas curvas, essas coisas que desde quando eu era ainda um adolescente já me despertavam desejo.

Porém, passado o tempo de novidade, aquele interlúdio de embriagues saudosista, algumas coisas começaram a realmente me chatear, e eu já não me sentia mais tão feliz como de início. Seus defeitos começaram a saltar aos olhos e eu, incomodado, tentei mudar algumas coisas em você, e algumas até consegui, adaptando e me adaptando a tudo.

Eu sei, e devo admitir que fui negligente em vários momentos, ignorando os teus sinais de que alguma coisa não andava bem, que você estava precisando de um pouco mais de atenção, e eu demorei pra perceber isso. Outras vezes também, em que eu ultrapassei os teus limites, exigido mais do que você poderia oferecer. Mas o que eu podia fazer, eu queria que fosse perfeito.

Para quantos lugares fomos juntos. Passamos bons e maus momentos. As vezes que fomos pro sitio, em que eu bebia além da conta, só resolvia que era hora de dormir quando já não suportava o peso dos olhos e, sem força pra nada, me aconchegava e acaba dormindo dentro de você, sem mais.

Nunca fui de sentir muito ciúme, e por isso deixei você sair com outras pessoas, que tenho certeza, nunca teriam por você o mesmo carinho e atenção. Sei que passei muitas vezes por você, sem querer prestar atenção, sem te olhar diretamente pra não ver coisas que me deixariam triste. Quantas e quantas vezes eu já pensei, e confesso, tentei me livrar de você. Mas não pude... e ainda não posso.

Então, o que me resta é dizer aquilo que nunca disse, ao menos não em voz alta, isso que sempre esteve guardado dentro de mim e que é a mais pura verdade: meu Opala querido, eu te amo!

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Terça-feira


Tenho a semana inteira pela frente, pra produzir e desfrutar das coisas que eu realmente gosto e preciso. Quem sabe eu cozinhe, ou faça algumas conservas, regule o instrumento de um amigo que o confiou a mim. 

Talvez hoje eu ouça a discografia dos Beatles, seguindo a ordem cronológica, fazendo um pequeno parênteses quando chegar em With a little help from my friends e Something para ouvir as versões do Joe Coker e, apenas por essa semana eu troque o meu Beatle preferido pelo Beatle George, ouça All things must pass de cabo a rabo e me concentre em sua genialidade. 

Posso, ainda, dispensar todo o meu tempo em concluir a leitura de Ao norte de mim mesmo, e me identificar com Noah Villas-boas, com seu estúdio caseiro, suas neuras amorosas, a idolatria pelo Lennon e seu complexo de Peter Pam.

No meio da semana, o encontro com a Matilha, cerveja, churrasco e Rock and Roll. Muitas risadas e a ressaca do dia seguinte - preço justo a se pagar por desfrutar da companhia dos amigos.

Ver filmes, sentir saudade. Tocar no violão alguma canção e sentir saudade. Olhar aquele porta-retrato e sentir saudade. Deitar a cabeça no travesseiro e sentir saudade. Acordar pela manhã e sentir saudade. Mas, que nada. Outubro tá ai.

Os dias não são assim tão diferentes, nem a rotina que se segue. O que muda é o olhar que deposito sobre eles. Então, se a escolha é minha, farei tudo isso com um sorriso na cara.