quarta-feira, 29 de maio de 2013

Cascudo


Ainda não sei se é mania ou necessidade, mas estamos sempre querendo deduzir o futuro, seja ele o minuto seguinte ou os próximos 10 anos. Estamos sempre querendo ver muito além do que a simples realidade precisa. 

Projetos de sonhos perfeitos, com pares perfeitos, casa com piscina, carros na garagem, viagens fora da época de férias.

Conhecemos pessoas em noites de músicas e bebidas, e logo queremos ver mais do que a pessoa mostra, seus vícios e virtudes. Quem sabe seja um sociopata, ou sofra de uma cândida solidão. Talvez tenha uma turma de amigos divertida, ou se esconda atrás de uma casca protetora. 

O que há além dessa casca, das máscaras, além dos carros bonitos estacionados à calçada, além dos olhos tristes ou do sorriso desesperado.

Ver além. Além dos olhos e daquilo que foi dito, deduzindo a essência dos atos mais simples, procurando sentido em palavras não pronunciadas e reinterpretando as frases mais corriqueiras. 

Criamos uma necessidade de transcender a opacidade cascuda que demoramos anos pra construir.

Ver além... dessa opacidade que você crê ser pura transparência.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

perhaps

Houve um tempo em que eu tinha muitas certezas. 
Certeza de quem eu era e das coisas que eu gostava. Tinha mais ou menos uma idéia do que as pessoas achavam de mim, mas tinha certeza de que era um cara legal. Sabia o que queria fazer da vida e tudo seguia muito bem.  
Mesmo quando chovia, o sol ainda raiva pela manhã, fazia minhas orações, agradecia a boa-venturança e tudo o mais.
Tinha certeza da lealdade dos meus amigos, do amor das pessoas ao meu redor, de dias felizes de descanso e da cerveja gelada, facilmente substituída por uma taça ou garrafas de vinho no inverno. 
Era difícil me sentir sozinho. Raro, até. Minha casa estava sempre cheia, colorida e musical.
Tinha certeza que os beatles eram os melhores do mundo, pra sempre, que de vez em quando eu ia escrever uma música qualquer emprestando alguns elementos deles, que ainda subiria no palco por muitas vezes  e veria shows sem pagar nada.
Mas não sei. Hoje a noite ta fria, um tanto vazia e sem lua. Para uma sexta-feira, me parece um tanto incomum.
Ao que vejo, cada passo dado nos afasta ou aproxima das coisas. Mau ou bom, bem ou mal. Não sei. Talvez seja só hoje... apenas mais um dia.

terça-feira, 19 de março de 2013

outono

Não quero sua censura, nem quero te ver procurando nas entrelinhas mensagens subliminares inexistente. Deixe-me usufruir de minha licença poética sem uso de aspas ou tremas, sem esquemas e sem vergonha. Deixe meu personagem Alter Ego viver suas aventuras improváveis em terras insólitas, e que desfrute sem dó nem piedade das nuances de minhas palavras desnudas. Deixe que viva sem planos, além do tempo ou do espaço, que não tenha casa nem endereço, que não precise de cadeiras na varanda em dias tristes de outono, cheios de folhas ao chão e fins-de-tarde cinzentos.

sexta-feira, 15 de março de 2013

sem sal


Se o meu leite ta morno, eu bebo. Se a cerveja ta quente, eu bebo também. Até posso fazer um pequeno protesto: "pô, cerveja quente é foda", mas continuo bebendo, quem sabe daqui a pouco mais ela fique geladinha.
Quem sabe seja um reflexo de ser um "semi-jovem" que já foi muito-mais-legal, mas que hoje só contempla sem muitas pretensões os vai-vêm rotineiros da vida, sem querer cobrar nem pagar para ver o espetáculo, seja ele o drama ou a minha pública comédia da vida privada.

segunda-feira, 4 de março de 2013

verbalizar

Volte para mim, oh vontade de escrever. 

Me venha com palavras fáceis, em verso ou em prosa, rasgue de dentro dos dedos que tremem, denunciando a falta de coragem ou a falta de jeito.
Vença a distração do telefone que toca nas horas impróprias e que leva pra longe as poucas rimas que surgem.
Faça desse branco vazio um esplendoroso bem-dito, que traga o suspiro e o riso com lágrima.
Não se entregue às dúvidas nem às dívidas do mau uso do verbo, ou da carne. Venha fácil, leve e sem receio. Fale do seio, da boca, do beijo ou simplesmente do rímel borrado nos olhos dela. Quero a palavra molhada, com o gosto do sexo e da cerveja gelada do bar. Quero todas aquelas letras que me sobram quando acordo de madrugada, quando sono me falta e idéias me sobram.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

carta


Eu não sei dizer por quanto tempo ela aguardou colada ao telefone, esperando que você ligasse. Talvez tempo suficiente para pensar em muitas coisas que a deixaram mais insegura e menos feliz.
Era notável em seus olhos a angustia das horas e dos dias em que aquela esperança de ainda ser importante pra você, de alguma maneira, foi dando a certeza da substituição. Pensava consigo: pessoas são facilmente substituíveis. 
Distraindo suas tardes com playlists cheias de boa música, ela chegava quase a sentir a mesma dor cantada por Kurt Cobain em suas letras, um misto de rejeição e ansiedade somada à ausência de alguém a quem se quer muito bem.
No fundo ela sabia que ia ser assim. Mas ela tentou, acreditou e esperou por você o quanto pode e, talvez, lá no seu intimo ela ainda espere por você, no tilintar do telefone celular ou batendo à porta para um passeio vespertino, com direito a sorvete e vitrines.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

2013


Acabei de passar meu primeiro café de 2013. 
O café é novo, mas nem tudo me parece tão novo assim, não fosse pelo calendário, ainda sem rabiscos e orelhas de burro. 
Estamos sempre a procura do novo. Novos discos, novos livros, novos amigos, novos amores ou novas formas de amar e, parafraseando Belchior, "o novo sempre vem", ou as vezes nós é que vamos ao seu encontro, deixando as velhas roupas coloridas para quem precise delas, para quem elas ainda sirvam. 
2012 teve início ao redor do fogo, com gritos e cantoria, numa alegoria digna de um ritual de iniciação e se findou sob a chuva terna de quem plantou a semente e agora rega, para fazer de 2013 uma árvore frondosa e cheia de bons frutos.
Outros 364 dias seguirão a orientação do trabalho, da fé e do amor. Fazer valer a pena e ser feliz.
Bom 2013 à todos!