segunda-feira, 11 de julho de 2016

So pra avisar que eu cheguei bem

Só pra avisar que eu cheguei bem. O dia ainda escuro, estrelas no céu enquanto os primeiros raios de sol esboçavam um vermelho no horizonte. Cheguei bem, mas cheguei sozinha e com um leve aperto de medo no peito, num tilintar de várias vozes indistintas ecoando na cabeça, e em cada uma delas uma opinião diferente.

Eu só queria avisar que cheguei bem, por que daqui pra frente eu não sei como vai ser. Talvez hoje, o momento da chegada seja o marco de um período da vida em que eu não sei onde vai dar, e essa incerteza me assusta.

Cheguei bem, sozinha, mas ainda assim trazendo você comigo, enraizado até o mais profundo âmago do meu ser. Tanto eu te quis que acho que quando aconteceu deixou de ter sentido e eu me perdi, e pra me encontrar é preciso que eu saia, que eu fuja, que eu de espaço para o universo trabalhar.

Sim, eu cheguei bem mas, a bem da verdade não sei ao certo onde estou. Cheguei bem, entretanto, sem você aqui esse quarto não me acolhe e parece que cada uma das personagens desse quadro na parede, muitas das quais nem sei quem são, me julgam com seus olhares inquisidores.

To aqui, e aqui vou ficar até que novamente meu eu grite pelo teu nome e meu desejo de estar com você não se desfaça na mudança da próxima fase da lua e nossos corpos, almas e corações possam se unir e viver a maternidade, digo, a eternidade que dura um amor.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Diferenças

Celebremos as diferenças, de gostos e cores, de aromas e sabores, de gênero e de pensamentos. Demos graças a essas diferenças, a essa vasta lista de opções das quais podemos optar e divergir, criando assim nossos próprios ambientes, nosso pequeno universo particular, nossa zona de conforto.

Celebremos aquilo que você vê em outros e não em mim, que somente assim eu guardo a minha particularidade. O que seria de nós sem nossas diferenças. O que seria de mim se eu fosse igual a todo mundo.

Não sou belo, nem perfeito, embora goste de pensar assim as vezes. Me deixa confortável. Mas já disse, a realidade é relativa, tão relativa quanto a verdade.

Sou diferente de você, você de mim. E é aí que está toda a beleza. Gosto quando você pode ser irritadiça e eu consigo me manter calmo e sorridente. Gosto quando você tem sono e eu consigo continuar acordado e te acariciar os cabelos e o rosto, gosto quando você tem fome e sou eu quem tem que cozinhar pra você.

Sei que a diferença entre aparecer com uma bandeja de sushi comprado no mercado e te levar pra jantar no restaurante japonês é gritante, mas a questão é o elemento surpresa, e ver o teu sorriso nessa hora não tem preço.

E quando as lembranças me trazem coisas ruins, eu vejo que existe uma diferença absurda entre ficarmos os dois trancados na garagem sem chave, sem jeito de sair mas poder transar efusivamente escorados nas paredes, depois dormir no chão entre os carros até amanhecer e entre cada um de nós termos uma chave de um apartamento e precisarmos de algum motivo pra transar.

Diferenças existem, é fato. É louco escrever e não ser lido, desejar e ser rejeitado, amar e não ser correspondido. Não, não é louco. É en-lou-que-ce-dor.

Existe um abismo entre: amar desesperadamente, planejando um futuro longo e bonito e entre querer viver um momento com um alguém qualquer por ai, independente do nome que este alguém venha a ter. Não importa.

Eu sei. Sou diferente de você. Mas em algum momento foi isso que te atraiu pra mim.

E, eu sei, você é muito diferente de mim... e é ai que está o ponto. Se fosse pra ser igual a mim, eu mesmo me bastaria. 

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Ração

Todos os dias bem cedo da manhã ou ao meio dia eu chego ao portão da casa dos meus pais e encontro a Lucy, minha Chow me esperando ou já correndo em minha direção, com olhos atentos e o rabo sempre demonstrando sua alegria em me ver.

E, o que faço eu pra merecer todo essa lealdade, essa alegria que recebo todos os dias, independente do meu humor, retribuindo ou não o carinho que recebo dela além de lhe servir uma tigela de ração e outra de água? Talvez aquele carinho atrás da orelha e umas escovadas que ela recebe de vez em quando.

Será que não somos todos assim com nossas outras relações que vivemos no dia-a-dia, no trabalho, na escola, na rua e principalmente em casa, com as pessoas mais próximas de nós? Nos acostumamos a dar e receber o mínimo, nossas doses diárias de ração, frias e sem sabor, as vezes duras, secas e mecânicas.

Vivemos na sociedade da impessoalidade, da virtualidade e do passageiro, mandamos abraços mas raramente abraçamos, enviamos beijos e também não os praticamos.

E, que mal há nisso? Nenhum, creio eu. Porém, o calor de um abraço e o poder de um beijo jamais serão superados pelas palavras, por mais belas que sejam. O estar presente ainda faz diferença maior do que o recado deixado no perfil virtual. Ainda prefiro ouvir aquela voz rouca e cheia de sono na frase do bom dia do que apenas ler em uma mensagem.

Eu gosto do virtual, vivemos nele e este passou a ser quase a nossa Matrix, uma realidade relativa, tão relativa quanto a verdade.

Então hoje, ou a partir de hoje, que tal trocarmos nossa ração por um prato quente, caloroso como um abraço, saboroso e bem servido como um beijo, temperado com especiarias aromáticas capazes de eternizar pequenos momentos em nossas memórias, aromas estes que, sempre que percebidos, em qualquer tempo de nossas vidas, tragam sempre bons motivos para sorrir e recordar.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

ser ou não ser

quando estou, não sou
quando sou, não quero
quando quero, não tenho
se tenho, perco
ao perder me recupero
e desesperado me mordo
na ânsia de
querer
estar e
ser
para quando estiver sendo o que quero
eu seja
apenas o que sou

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Desculpas

quero
pedir desculpas
pelas palavras não ditas
pelas ações não feitas
e pelas tantas vezes em que eu
deixei de fazer você sorrir
pela falta de zelo
a estupidez
o descaso
a insensatez
pela maquiagem borrada e
pela fronha molhada na noite mal dormida
a falta de fome
e a falta de fé
pelas historias mal contadas
pelos sonhos desfeitos
pelo que era e deixou de ser
que deveria ter sido e não foi
as ausências
e frustrações
por dizer o que não devia
por ouvir mais do que falar
por fazer esperar
por levar a ferro e fogo
onde caberiam
flores e canções
Alguma coisa entre Bukowski e Gabito, nem tão duro, nem tão sentimental, que conseguisse tão somente dizer o hoje, um espelho de mim, limando as arestas, lapidando carvão.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Dança o tango comigo?



Apesar de avançado Dezembro, naquela noite fazia frio em Buenos Aires.  Saímos do hotel e as luzes da cidade já iluminavam toda a avenida. Ele passou seu braço ao redor de minha cintura num abraço quente, mas ainda segurava firme minha mão como quem não me queria longe nem por um segundo. 

Olhei para ele e sorri. Era nossa primeira noite na cidade, da qual nada conhecíamos, a não ser pelas fotos dos catálogos de viagens.

Caminhamos  algumas quadras e logo chegamos a Plaza de Mayo , dando de cara com a Casa Rosada. Muitos turistas ainda posavam para fotos com o monumento ao fundo.  Nós também. Ele tentou pontificar alguma noção de história, dizendo que aquele era o marco da fundação da cidade e palco de outros grandes acontecimentos, mas naquele momento eu apenas queria sentir a alegria de estar ali, longe das coisas cotidianas e bem perto dele, ganhando toda a sua atenção.

Continuamos andando, e um pouco mais adiante um casal apresentava sensualmente um tango em plena rua, e aquela cena nos deteve de imediato. Quietos, porém eufóricos, assistimos o espetáculo até o fim. Seus olhos sorriam, fascinados. Ele estava bem, eu sabia. Quanto tempo já havíamos planejado aquela viagem, mas por um ou outro motivo não acontecia. Agora, estávamos ali.

Havia muito movimento de pessoas nas calçadas e todas pareciam desfrutar do mesmo sentimento que nós. Uma irradiante alegria e paz interior, sobretudo pelo clima de Natal.

Entramos num café e pedimos alguma coisa para comer. Havíamos viajado aquele dia inteiro, e apesar da euforia estávamos cansados. Muito cansados, na verdade. Decidimos voltar logo para o hotel e assim nos preparar para os próximos dias, que seriam lindos.

Naquela noite, deitados, continuamos a fazer os nossos planos de viagem e também da vida. A casa, filho, família. Abraçada e com a cabeça colada em seu peito, podia ouvir as batidas do seu coração, e podia jurar que elas diziam meu nome. Sim, eu estava feliz e assim eu seria, para sempre.