quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Procrastinador


Eu sei que sou assim. Um procrastinador.
Já fiz uma lista de coisas que devem ser feitas, mudadas, providenciadas, compradas e, as vezes por falta de tempo ou dinheiro não as faço na hora, e depois não as faço mais, deixando sempre para mais tarde.
Uma consulta médica que nunca faço, o filho do amigo que não conheço, o livro que não leio, a produção do documentário que não vai além das conversas em noites de trago, uma nova música que não escrevo, sempre deixados para depois. Acho que até a barba e o cabelo as vezes crescem um pouco mais por conta disso.
Posso chamar isso de desleixo? Eu creio que sim, pois a minúcia da vida está contida nos detalhes, as vezes detalhes a que não damos muita importância, mas que no fundo fazem toda a diferença. Uma mudança simples que é deixada de fazer, a tempo, pode mudar o curso de tudo.
Minha lista de coisas por fazer aumenta, até que a "água bata na bunda".
Sair da zona de conforto.
Martelo, pregos, parafusos... disposição, empenho e umas doses a menos de egoismo ao procrastinador, e quem sabe a luz daquele pendente que eu ainda não terminei volte a iluminar a sala ou até mais longe, além das paredes que me cercam.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

16 anos

26 de junho de 1997

Eram seis horas da tarde e eu corria pelo centro da cidade com minha mulher grávida dentro do carro, com as dores das contrações já, mas não ia em direção ao hospital. Eu precisava buscar a câmera filmadora na casa do Lupião, meu irmão, para poder registrar o evento que mudaria minha vida para sempre. Tudo o que eu sabia do mundo até ali, não era nada. A partir daquele dia eu daria início a um aprendizado sem ementa, sem plano de ensino, sem horário pra cumprir, ministrado por uma pessoa que eu ainda não conhecia, mas que sabia, seria para sempre.

Chegando ao hospital, o médico e sua equipe já esperavam em frente ao centro cirúrgico, impacientes. Sim, estávamos atrasados, mas eu tentei explicar pra ele o por que da demora, ao que ele me deu um banho de água fria. Duvidando visivelmente da minha capacidade de manter-me íntegro, ele foi irredutível, não me deixou filmar o parto e me fez esperar do lado de fora. Foi rápido até, mas sinceramente pareceu uma eternidade. Eu sapateava de cá pra lá, de lá pra cá. Tinha algumas pessoas junto comigo, mãe, irmãos, cunhadas.

Eu esperava ansioso, minha cabeça só pensava como ela seria, se seria perfeitinha, se teria orelhas grandes, se se se...

E então, ela chegou. A enfermeira abriu a porta perguntando quem era o pai. Era eu. Eu era o pai e ela, aquela pequena enrolada num num soft cor-de-rosa, era a minha filha. 
Um minuto ou dois, só para as apresentações e então ela voltou pra junto da mãe e ao berçário.

Chorei. Chorei muito, sem saber exatamente o por que. Coisas que não se explicam, apenas se sentem.

Disse antes que havia iniciado nesse dia um aprendizado, e ele continua acontecendo. A cada dia, a cada engatinhada de uma perna só, a cada novo passo, a cada novo sorriso, até os dias de hoje.
Contados no calendário, são 16 anos. 

Ela já se fez moça e, inegavelmente uma grande pessoa, um ser humano lindo e especial, que continua me ensinando mais e mais, e me proporcionando a cada dia, mais motivos de alegria para esse pai babão, bobão.

Te Amo Isa. Feliz aniversário.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Cascudo


Ainda não sei se é mania ou necessidade, mas estamos sempre querendo deduzir o futuro, seja ele o minuto seguinte ou os próximos 10 anos. Estamos sempre querendo ver muito além do que a simples realidade precisa. 

Projetos de sonhos perfeitos, com pares perfeitos, casa com piscina, carros na garagem, viagens fora da época de férias.

Conhecemos pessoas em noites de músicas e bebidas, e logo queremos ver mais do que a pessoa mostra, seus vícios e virtudes. Quem sabe seja um sociopata, ou sofra de uma cândida solidão. Talvez tenha uma turma de amigos divertida, ou se esconda atrás de uma casca protetora. 

O que há além dessa casca, das máscaras, além dos carros bonitos estacionados à calçada, além dos olhos tristes ou do sorriso desesperado.

Ver além. Além dos olhos e daquilo que foi dito, deduzindo a essência dos atos mais simples, procurando sentido em palavras não pronunciadas e reinterpretando as frases mais corriqueiras. 

Criamos uma necessidade de transcender a opacidade cascuda que demoramos anos pra construir.

Ver além... dessa opacidade que você crê ser pura transparência.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

perhaps

Houve um tempo em que eu tinha muitas certezas. 
Certeza de quem eu era e das coisas que eu gostava. Tinha mais ou menos uma idéia do que as pessoas achavam de mim, mas tinha certeza de que era um cara legal. Sabia o que queria fazer da vida e tudo seguia muito bem.  
Mesmo quando chovia, o sol ainda raiva pela manhã, fazia minhas orações, agradecia a boa-venturança e tudo o mais.
Tinha certeza da lealdade dos meus amigos, do amor das pessoas ao meu redor, de dias felizes de descanso e da cerveja gelada, facilmente substituída por uma taça ou garrafas de vinho no inverno. 
Era difícil me sentir sozinho. Raro, até. Minha casa estava sempre cheia, colorida e musical.
Tinha certeza que os beatles eram os melhores do mundo, pra sempre, que de vez em quando eu ia escrever uma música qualquer emprestando alguns elementos deles, que ainda subiria no palco por muitas vezes  e veria shows sem pagar nada.
Mas não sei. Hoje a noite ta fria, um tanto vazia e sem lua. Para uma sexta-feira, me parece um tanto incomum.
Ao que vejo, cada passo dado nos afasta ou aproxima das coisas. Mau ou bom, bem ou mal. Não sei. Talvez seja só hoje... apenas mais um dia.

terça-feira, 19 de março de 2013

outono

Não quero sua censura, nem quero te ver procurando nas entrelinhas mensagens subliminares inexistente. Deixe-me usufruir de minha licença poética sem uso de aspas ou tremas, sem esquemas e sem vergonha. Deixe meu personagem Alter Ego viver suas aventuras improváveis em terras insólitas, e que desfrute sem dó nem piedade das nuances de minhas palavras desnudas. Deixe que viva sem planos, além do tempo ou do espaço, que não tenha casa nem endereço, que não precise de cadeiras na varanda em dias tristes de outono, cheios de folhas ao chão e fins-de-tarde cinzentos.

sexta-feira, 15 de março de 2013

sem sal


Se o meu leite ta morno, eu bebo. Se a cerveja ta quente, eu bebo também. Até posso fazer um pequeno protesto: "pô, cerveja quente é foda", mas continuo bebendo, quem sabe daqui a pouco mais ela fique geladinha.
Quem sabe seja um reflexo de ser um "semi-jovem" que já foi muito-mais-legal, mas que hoje só contempla sem muitas pretensões os vai-vêm rotineiros da vida, sem querer cobrar nem pagar para ver o espetáculo, seja ele o drama ou a minha pública comédia da vida privada.

segunda-feira, 4 de março de 2013

verbalizar

Volte para mim, oh vontade de escrever. 

Me venha com palavras fáceis, em verso ou em prosa, rasgue de dentro dos dedos que tremem, denunciando a falta de coragem ou a falta de jeito.
Vença a distração do telefone que toca nas horas impróprias e que leva pra longe as poucas rimas que surgem.
Faça desse branco vazio um esplendoroso bem-dito, que traga o suspiro e o riso com lágrima.
Não se entregue às dúvidas nem às dívidas do mau uso do verbo, ou da carne. Venha fácil, leve e sem receio. Fale do seio, da boca, do beijo ou simplesmente do rímel borrado nos olhos dela. Quero a palavra molhada, com o gosto do sexo e da cerveja gelada do bar. Quero todas aquelas letras que me sobram quando acordo de madrugada, quando sono me falta e idéias me sobram.